
Imagine, por um momento, o silêncio cortante das montanhas andinas. O ar é rarefeito, o vento atravessa as pedras e, entre os picos gelados, ecoa o som distante de uma flauta. É nesse cenário de altitude, minério e tradição ancestral que nasce uma das melodias mais reconhecidas do planeta.
O alquimista dos sons: Daniel Alomía Robles
Antes de se tornar uma música famosa, El Cóndor Pasa foi o resultado de uma longa busca.
Seu criador, Daniel Alomía Robles, não era apenas compositor — era também pesquisador da música andina. No início do século XX, enquanto muitos artistas da elite peruana buscavam inspiração na Europa, Robles tomou o caminho oposto: subiu as cordilheiras.
Durante anos ele percorreu vilarejos, escutou pastores, músicos populares e comunidades indígenas. Seu objetivo era registrar cantos e melodias que sobreviviam apenas na tradição oral. Ele acreditava que a verdadeira identidade musical do Peru estava ali — nas flautas de cana, nos ritmos das festas e nas canções transmitidas de geração em geração.
Foi desse mergulho na cultura andina que surgiu El Cóndor Pasa: uma composição inspirada nas sonoridades tradicionais dos Andes, transformadas em uma obra musical única.
A zarzuela: um drama nas montanhas
A melodia apareceu pela primeira vez em 1913, como parte de uma peça musical — uma zarzuela — escrita por Robles em parceria com o dramaturgo Julio Baudouin.
A obra estreou em 19 de dezembro de 1913, no Teatro Mazzi, em Lima.
Mas a história por trás da música não era leve ou romântica.
A trama se passa em uma mina na região de Cerro de Pasco, nos Andes peruanos. Ali, mineradores indígenas vivem sob o domínio de proprietários estrangeiros da mina. A peça retrata o conflito entre exploração e dignidade, entre o poder econômico e a vida dura dos trabalhadores.
No momento final da história, após tragédias e confrontos, um condor aparece voando sobre as montanhas. Para os personagens, o animal torna-se um sinal poderoso: esperança, liberdade e a possibilidade de um novo começo.
O condor, símbolo sagrado das culturas andinas, passa a representar algo maior que a própria história da peça — o desejo humano de liberdade.
Em 2013, em comemoração aos 100 anos da encenação original de “El Condor Pasa”, foi feito uma nova encenação recuperando as formas originais das músicas. (Fonte: https://www.historiacomgosto.com.br/2017/09/a-musica-el-condor-pasa-historia.html)
O encontro com o mundo
Por décadas, El Cóndor Pasa permaneceu conhecida principalmente na América do Sul.
Tudo mudou nos anos 1960.
Em 1965, o músico Paul Simon ouviu a melodia tocada pelo grupo andino Los Incas durante uma apresentação em Paris.
Encantado com o som das flautas e do charango, Simon decidiu gravar uma nova versão. Em 1970, a música ganhou letras em inglês e foi lançada pelo duo Simon & Garfunkel no álbum Bridge Over Troubled Water.
A canção se espalhou pelo planeta.
Hoje existem milhares de versões da melodia em diferentes idiomas e estilos musicais.
O que começou como uma cena de teatro sobre mineradores andinos acabou se transformando em uma das melodias mais universais do mundo.
Talvez porque, no fundo, toda vez que aquela flauta sobe de tom, ela nos lembra da mesma coisa que inspirou a obra original:
O eterno desejo humano de voar livre como um condor sobre as montanhas.
Primeira letra para El Condor Pasa
Letra em quíchua
Yaw kuntur llaqtay urqupi tiyaq
maymantan qawamuwachkanki,
kuntur, kuntur
apayllaway llaqtanchikman, wasinchikman
chay chiri urqupi, kutiytan munani,
kuntur, kuntur.
Ó majestoso Condor dos Andes,
leva-me ao meu lar, nos Andes,
Ó Condor.
Quero voltar à minha terra querida e viver
com meus irmãos Incas, que é o que mais anseio
Ó Condor.
Qusqu llaqtapin plaza-challanpin
suyaykamullaway,
Machu piqchupi Huayna piqchupi
purikunanchiqpaq.
Em Cusco, na praça principal,
espera-me, para passearmos em
Máchu Pícchu e Huayna Pícchu.
Playlist com várias versões de El Condor Pasa

