Todo samurai tem duas espadas. Uma para o mundo lá fora — a katana, afiada, visível, pronta pro combate. E outra para o mundo aqui dentro — invisível, silenciosa, mas que decide se a primeira vai ser usada com sabedoria ou com raiva. Faz mais de vinte anos que eu conheci o homem que me apresentou essa segunda espada: Ken O’Donnell.

Na época, Ken já era coordenador da Brahma Kumaris na América Latina, já tinha escrito boa parte dos quase vinte livros que carrega hoje, e já falava de meditação com a mesma naturalidade com que a maioria de nós fala de tomar café de manhã. Eu me lembro de sair daquele primeiro encontro com uma pergunta martelando na cabeça: como é que um homem que passou a vida inteira treinando o silêncio consegue ter mais clareza de ação do que qualquer executivo estressado que eu já tinha cruzado? A resposta, eu só fui entender de verdade duas décadas depois, num retiro em Serra Negra.

O dojo fica dentro de você

Existe uma ideia romântica de que alta performance se constrói só lá fora: mais horas de trabalho, mais metas, mais velocidade. É a lógica do guerreiro que afia a espada todos os dias e nunca pergunta pela mão que a segura. Só que uma mão cansada, ansiosa, dispersa — por mais afiada que seja a lâmina — erra o golpe.

Foi isso que revivi quando tive a HONRA de participar do retiro de gratidão da Brahma Kumaris, na Vila Serra Serena, em Serra Negra — experiência que já contei com mais detalhes neste post. Reencontrei ali a Luciana Ferraz, e tive a chance de conduzir uma vivência de gratidão com corações de origami — meu próprio ofício, a arte de dobrar papel, virando ponte para dobrar também o que carregamos por dentro.

Mas foi um ensinamento antigo do Ken, revivido naqueles dias de silêncio, que me trouxe de volta ao chão: nós passamos pelos mesmos cinco estados de mente que qualquer pessoa em busca de alta performance vai reconhecer na hora.

Os cinco animais que moram em você

  1. O Macaco — mente que pula de galho em galho, de notificação em notificação. É o estado padrão de quem confunde estar ocupado com estar produtivo.
  2. O Burro — teimoso, resistente à mudança, empurrando a carroça do jeito que sempre empurrou, mesmo quando o caminho já mudou.
  3. A Borboleta — dispersa, mas com lampejos de beleza e clareza. Já é sinal de evolução: pelo menos pousa, de vez em quando.
  4. A Garça — concentração, foco, precisão no bote. É onde a maioria dos manuais de produtividade tenta te empurrar direto, pulando etapas.
  5. A Flor de Lótus — domínio e serenidade completos. Raiz na lama, flor limpa acima da água. O estado de quem age no mundo sem ser sujado por ele.

Um verdadeiro mestre samurai não nasce na Garça. Ele atravessa o Macaco e o Burro sabendo que fazem parte do caminho, não o oposto dele. E o Raja Yoga, que é a meditação ensinada pela Brahma Kumaris, existe exatamente para isso: não para eliminar a mente, mas para dar a ela um mestre. Como o próprio Ken costuma dizer, “o Raja Yoga liberta. Ele libera o poder para respondermos às situações com amor” — e amor, aqui, não é fraqueza. É a forma mais alta de controle.

Você não é o papel. Você é o ator.

Tem uma frase que ouvi lá em Serra Negra e que carrego comigo desde então: “eu não sou o papel que represento, eu sou o ATOR.” Pense na quantidade de papéis que você veste num único dia — líder, pai ou mãe, vendedor, mentor, filho. A maioria das pessoas se perde tentando ser perfeita em cada papel, como se cada máscara fosse a própria identidade. O samurai sabe outra coisa: a armadura não é o guerreiro. Ela pode ser trocada, ajustada, até quebrada em batalha — e o guerreiro continua de pé, porque ele nunca foi a armadura.

Essa é a diferença entre performance que esgota e performance que sustenta. Quem se apega ao papel, quebra junto com ele a cada crise. Quem sabe que é o ator por trás do papel, atravessa a tempestade e troca de roupa no dia seguinte.

Serra Negra: um santuário para afiar a espada invisível

O espaço que hospedou essa vivência — hoje formalizado como Retiro Espiritual em Serra Negra, na Vila Serra Serena — é exatamente isso: um dojo para a espada que ninguém vê. Fica na Rodovia SP-360, entre Serra Negra e Lindóia, com salão de meditação, terraço de yoga, horta orgânica, trilha ecológica e capacidade para até 42 pessoas dividirem, por alguns dias, o mesmo silêncio.

Não é preciso já saber meditar para ir. Não é preciso ser monge, nem estar em crise, nem ter todas as respostas. É preciso, isso sim, estar disposto a desacelerar o suficiente para ouvir a própria voz por baixo do barulho — porque é ali, na quietude, que moram os talentos que a rotina normalmente atropela.

A conexão que sustenta a alta performance

Depois de mais de vinte anos acompanhando o trabalho do Ken O’Donnell e, mais recentemente, revivendo essa jornada em Serra Negra, chego numa conclusão que hoje guia minha mentoria: não existe alta performance sustentável sem espiritualidade — entendida não como religião, mas como a disciplina de se reconectar com o próprio EU.

Um samurai não é definido pela quantidade de batalhas que vence lá fora. É definido pela clareza com que enfrenta a batalha mais silenciosa de todas: a de conhecer a si mesmo. Enquanto você não afiar essa espada interior, toda a sua força externa vai continuar sendo golpe de sorte, não domínio.

Se você sente que está no estágio do Macaco, ou preso na teimosia do Burro, saiba que isso não é fraqueza — é ponto de partida. A Garça e a Flor de Lótus existem para quem se dispõe a treinar. E talvez, como aconteceu comigo, o primeiro passo desse treino nem precise ser grandioso: pode ser simplesmente aceitar o convite de um mestre, sentar em silêncio numa montanha em Serra Negra, e deixar que a mente, finalmente, pouse.

Gratidão eterna ao Ken O’Donnell, por ter me apresentado, há mais de duas décadas, a espada que eu mais precisava aprender a usar.


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